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13
out
2015

Minha avó foi internada em fevereiro do ano passado e, desde então, o meu maior medo era que o telefone tocasse. No último dia 29 de agosto, ele tocou. Sabe aquele momento que você passa a vida inteira temendo e imaginando como vai ser? O meu chegou. O momento que o chão some junto com o medo. Aconteceu. Acabou. Chorei muito, fiquei perdida. Engoli o choro e fui ajudar a resolver o que era necessário. Me controlei. Não gritei, não desmaiei. Sorri e concordei que o tempo ajudaria a amenizar a dor. Cheguei em casa e desabei. Uma semana quase inteira na cama. Nessas horas a gente tem que se deixar cair, uma hora o céu começa a abrir e você volta a ter esperança. Confia em mim, digo por experiência própria.

Nossa estadia no Barra D’Or começou no dia 26 de fevereiro de 2014, dia em que a vovó foi internada com uma infecção urinária grave. Quando ela completou duas semanas de hospital, comentei com a minha madrinha: “Soube que tem um senhor que está aqui há oito meses. Não sei como essa família aguenta”. Aquelas horas em que a gente quase que lê o futuro num comentário bobo... A vovó ficou internada por dezoito meses. E nós tivemos todo o tempo do mundo pra descobrir a resposta pra minha dúvida, AMOR. Só esse sentimento pra fazer uma família aguentar a rotina de um hospital por tanto tempo. Ela não ficou nenhum desses muitos dias sozinha. Além dessa resposta, pude aprender muitas outras lições, que resolvi dividir com vocês:

1 – Só peru morre de véspera

Esse ditado era muito falado pela minha vó e foi comprovado por ela mesma. Mãe de sete filhos, avó de onze netos, bisavó de oito bisnetos, D. Mariza viveu saudável até os seus 90 anos. Quando estava se recuperando da infecção, já no hospital, sofreu um AVC que fez com que ela apagasse para o mundo. Ficou em estado gravíssimo algumas vezes, ouvimos que ela não passaria daquela noite algumas outras, sendo que todas as previsões se mostraram erradas. E isso me leva ao próximo tópico...

2 – Aprender a viver com mais plenitude

Sofri pela possibilidade de perder a minha avó desde pequena. Não sei explicar o motivo, mas sempre que pensava que um dia ela morreria, chorava muito. A única coisa boa que esse medo me trouxe, foi a consciência de que eu tinha que aproveitar muito cada momento com ela. Os beijos, os abraços e as palavras de carinho eram dobrados. Por outro lado, sofrer por antecipação por uma coisa que é inevitável me trouxe muitas crises de ansiedade e momentos de depressão. Os dezoito meses de internação foram provavelmente a maior aula que eu poderia ter. As coisas só terminam quando acabam. Frase boba, simples, de uma sabedoria imensa. Cada vez que eu me abati, não consegui estar ao seu lado por inteiro. E, no final das contas, o sofrimento antecipado não diminuiu a dor de quando ela partiu.

3 – Gratidão

Chegar aos 90 anos com saúde, tendo acompanhado a maior parte da vida dos seus filhos é uma sorte, uma benção. Foi uma vida plena, vivida com dignidade, com amor. Todos os caminhos tortos da vida me levaram a viver ao lado dela e a ter o privilégio de conviver muito próxima por muitos anos. A quantidade de memórias lindas que ficam é imensa. Nesse último ano e meio, pessoas próximas perderam entes queridos cedo demais. A força com que essas pessoas encararam as suas perdas, as histórias de vida interrompidas repentinamente, foram uma grande inspiração. Ninguém é eterno. Eu fui agraciada por ter tido um tempo longo e maravilhoso ao lado de uma das melhores pessoas que eu conheci na vida. Aprendi e sou grata por tamanha sorte.

4 – Os limites do amor...

...Não existem. Tive a sorte de poder ajudar a cuidar da minha avó. Fiz curativos, ajudei com a sua higiene, briguei por ela. Vi cenas que achei que não aguentaria e fiz coisas que achei que não seria capaz. E teria ido muito mais longe, se necessário.

5 – A dor do outro

Não existe fita métrica, balança ou raio-x que possam nos dar uma noção da dor do outro. Sou muito crítica, sempre apontei muitos dedos. E o tempo me mostrou que eu estava errada. Quem menos merece é quem mais precisa do nosso amor. Não é fácil. O exercício da empatia, da compaixão, é diário e começa quando eu passo a ser mais generosa e compreensiva comigo, com os meus erros. Sou humana, derrapo muito, mas não deixo de tentar melhorar nesse quesito pelo menos um pouco a cada dia.

6 – Amor não é igual a dor

O tanto que eu chorar, me desesperar e rejeitar o final comum a todos os seres humanos, a morte, não é proporcional ao meu amor pela pessoa. Procurar olhar esse momento de despedida nos olhos, de uma maneira mais madura e serena vai me ajudar a ter mais paz e plenitude na vida.

O momento que eu mais temi a minha vida inteira chegou. Cabe a mim usá-lo para me afundar ou crescer, já que evitá-lo não é uma opção. Depois de um mês muito triste, é hora de seguir em frente. Minha vozinha que a minha vida inteira me ensinou lições preciosas, me presenteou com mais essas lições que eu levarei por toda a vida.

"Estar perto não é físico".

Ismael Caneppele

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