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02
jun
2015

Eu já tinha uma ideia de post há algum tempo: cinco coisas que você salvaria em caso de incêndio. Já sabia até quais seriam as minhas, mas não queria colocar as coisas dessa maneira. Incêndio? Deus me livre! A ideia acabou ficando só no meu caderno, aguardando o seu dia. Na quarta-feira passada, assistindo ao Saia Justa, a convocação aconteceu e as saias conseguiram dar a esse post um título mais sutil. O tema do bloco era ter menos coisas, desapego, acúmulo, consumo. E essa é uma discussão acalorada que venho tendo comigo mesma esse ano. Quando a crise em relação ao meu emprego começou, a primeira desculpa para não mudar o rumo era: você precisa do dinheiro. E vinha a tréplica: para que você precisa do dinheiro? Mais ou menos nessa época, rolou uma manifestação sobrenatural na casa, inflando a discussão: quebrei o meu armário. Para que você precisa do dinheiro?

Todo mundo precisa de dinheiro para pagar as contas, isso é óbvio. Mas você por acaso já investigou o quanto custam as suas necessidades inventadas? Eu venho fazendo isso desde então. A primeira descoberta foi, nenhuma bolsa, nenhuma peça de roupa, nem mesmo uma viagem, valem um ano trabalhando em algo que não te faz feliz. E, aos tropeços, venho tentando refazer a minha relação com o consumo e com as coisas que eu tenho em casa. Vamos parar por um minuto, para que você faça o exercício proposto no título. Quais são as suas cinco coisas? Elas têm preço ou valor pra você? Se você deixar uma delas pra trás, dá pra comprar outra? Aposto que para a maioria das coisas que você escolheu, a resposta é não.

Três livros marcam esse meu processo de conscientização: Como se preocupar menos com dinheiro, de John Armstrong; Vida Organizada, da Thais Godinho; e Do Less – A minimalista guide to a simplified, organized and happy life, de Rachel Jonat. Já falei sobre o Vida Organizada nesse postaqui e pretendo resenhar os outros dois em breve.

Mas o ponto é entender quais as emoções que te fazem comprar. Muitas pessoas compram a sua infância pobre; o carinho das pessoas; se compensam por suportar um emprego que não as realiza; seus relacionamentos fracassados; a pessoa que querem ser. E não paramos de acumular. Se você não é rico, como é o meu caso, cada compra desnecessária te deixa mais distante do seu objetivo, seja ele qual for. No meu caso era ter um período sabático, um tempo pra rever a minha trajetória profissional e modificar a rota. Cada compra desnecessária pode te deixar mais distante de um imóvel próprio, de uma viagem de férias, de um carro...

E o outro ponto é tentar entender a razão que nos faz acumular. Descobrir as suas reais necessidades e fazer uma sessão de desapego em todas as áreas da sua casa pode te trazer inúmeros benefícios. Vamos a eles:

- Rever as suas roupas e acessórios e reorganizá-los vai te ajudar a usar mais e melhor aquilo que você já tem. Nesse processo, temos alguns obstáculos. Os mais comuns são os famosos “posso querer usar um dia” e “quando eu emagrecer, eu vou usar”. No primeiro caso, se a peça em questão não é usada há mais um ano, sinto te dizer que esse dia provavelmente não vai chegar. Se ele chegar, você vai poder suprir essa necessidade, acredite. Entulhar o seu armário não é a solução para necessidades tão pontuais. Em relação ao quesito emagrecimento, a primeira pergunta a se fazer é: quais são as medidas que estou tomando para alcançar esse objetivo? Se o máximo que você está fazendo é passar em frente à academia, doe. Se você espera voltar a ter o corpo dos seus 18 anos pra usar aquela calça guardada há séculos, doe. Não que você não vá conseguir emagrecer, é que nosso corpo muda com o passar dos anos, não só em relação ao peso e gordura. O corpo muda, aquilo que você veste deve acompanhar esse processo.

- Tudo aquilo que é especial, deve ser usado diariamente. O luxo não tem função melhor do que colorir a nossa rotina. Aquele faqueiro que você ganhou de casamento? Use todos os dias. O aparelho de jantar que você usa para “receber visitas”? Use todos os dias. Já tive esses pensamentos de guardar as coisas para uma ocasião especial, luto diariamente para combatê-los. É uma delícia arrumar a casa para receber pessoas queridas. Só que a ação de guardar as peças especiais somente para esses dias é como esperar o ano inteiro para ser feliz nas férias. A vida é curta demais pra esperar. O dia mais adequado para usar esses itens é aquele em que você chega exausta(o) do trabalho e vai relaxar, saborear uma boa refeição. Esse mais de um ano em que a vovó está internada, eu perdi a vontade de receber os amigos em casa. É uma fase, um dia vai passar. Mas o ponto é, vou parar de usar tudo o que nós temos de especial em casa, esperando o dia em que voltaremos a fazer almoços/jantares? Ah, só que os talheres vão arranhar, você pode quebrar os pratos. Ainda que isso aconteça, você certamente terá usado essas peças muitas vezes mais do que se elas tivessem ficado guardadas no armário para as tais ocasiões. Quando isso acontecer, você substitui. Simples assim.

- Tempo. Isso mesmo, desapegar vai te poupar tempo. Você vai encontrar as coisas com mais facilidade, vai usá-las por estarem visíveis e levará menos tempo limpando. Esse ano a minha rinite ficou muito forte, passei a ter crises semanais. Resolvi mudar a maneira de limpar a casa e percebi o quanto o acúmulo toma tempo. Nosso apartamento é pequeno, mas tem tanta pequeneza, lembrança de viagens, que eu levo muito tempo pra limpar tudo. Não vou conseguir me desfazer de muitas dessas coisas (ainda), porém já colocamos na cabeça que não dá pra comprar mais. Fora que, nessa sessão de desapego, você vai lembrar de muitas coisas que estavam esquecidas e, que, uma hora ou outra, você compraria outro item parecido. Isso poupa dinheiro e dinheiro é tempo.

Olha, isso aqui tá longe de ser um texto anti-consumo. Loooonge mesmo. Eu amo moda, amo roupas, amo bolsas. A questão é compreender que, apesar de eu gostar disso tudo, essas coisas não me definem. Meus objetivos maiores não podem ser sacrificados por impulsos e necessidades que eu criei. Assisti a uma entrevista da Gisele Bündchen, concedida ao GNT Fashion, onde a Lilian Pacce fala que, com toda a bajulação e o status, seria fácil ela ter se deslumbrado. Ela responde que a moda é um negócio pra ela, mas que não a define. A riqueza da vida está na qualidade dos relacionamentos que ela mantém. E ela segue vivendo fora dos holofotes, se vestindo de forma simples e batendo recordes que a farão permanecer no topo por muito tempo. Uma vida simples não é uma vida pobre, é uma vida plena.

Resumindo, não podemos virar escravos de coisas. Sim, isso é uma escolha que você pode fazer. No dia a dia, na farmácia, evitando comprar mais um creme, sendo que você nem usa os que estão na sua casa. Evitando comprar mais livros, se ainda existem tantos não lidos na sua estante. Fugindo de mais uma blusinha, enquanto ainda houver uma peça com etiqueta no seu armário. A simplificação da sua casa, a redução das coisas que você guarda, te ajudará a viver uma vida mais plena, mais simples. Precisar de menos coisas, apreciar aquilo que já possuímos, vai nos ajudar a trabalhar e viver mais intensamente no presente. Ou a gente mostra pro dinheiro quem é que manda, ou viramos seus escravos e o nosso tempo passa a não mais nos pertencer.

Pra fechar esse post, vamos às minhas cinco coisas indispensáveis:

1 – Álbum de casamento – sempre fui muito fã de fotografia. Esse álbum, além de uma grande lembrança de um dia muito feliz é uma obra de arte, um objeto especial de decoração. A Jann La Pointe, que fotografou o nosso grande dia, é de uma sensibilidade absurda. O resultado nos surpreende até hoje, quase dois anos depois.

2 – Camiseta do meu irmão – tenho um irmão menor, que vai fazer 15 anos no mês que vem. Guardei essa camiseta de quando ele era pequeno comigo, pra lembrar sempre do bebê mais fofo que eu já vi na vida, meu príncipe.

3 – Urso de pelúcia – Minha mãe me deu esse urso quando eu era pequena. Dei a ele o nome de Tico, que era como a minha mãe me chamava quando eu era pequena.

4 – Mala de recordações – Essa mala, que é a coisa mais linda, de madeira, a parte interna forrada com uma estampa maravilhosa, foi presente de uma tia querida. Dentro dela estão os cartões que eu recebi na vida. Aniversários, casamento, Natais... Todas as datas marcadas pelo carinho das pessoas especiais que eu tenho na vida.

5 – Computador – Esse item é o único que eu poderia comprar novamente. Só que ele carrega fotos, textos, ideias, parte da minha vida dentro dele. É precioso.

Pra fechar esse post, vou citar duas frases que foram mencionadas pelo filósofo Mario Sergio Cortella, convidado do Saia Justa do dia 27/05:

“O importante é ter sem que o ter te tenha”. Millôr Fernandes

“ Toda posse de um objeto desnecessário é furto”. Mahatma Gandhi

Pra gente refletir e evoluir 🙂

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