≡  
27
fev
2015

        Os passeios na feira, na esperança de ganhar papel de carta. Os bifes de carne moída e as massas de bolo, que eu raspava da batedeira. O argumento para me livrar do castigo, o castigo. As tardes treinando a tabuada, as tardes vendo ela jogar paciência. As cosquinhas no joelho, o “papinho batido” na varanda nas tardes de verão. A primeira vez que eu comi lula e kiwi. A mania de entrar em todas as filas de degustação de novos produtos no mercado, que tanto irritavam a minha mãe. As brigas com o meu avô. Ele dormindo no quarto e ela na sala. Sua força. Dona Irene, Vó Olga, Fizinha, Tia Beatriz, suas amigas. A fé inabalável, as missas na TV, o Divino Pai Eterno, o terço. As orações para proteção do “mundo todo”, sua água benta.

- Imagina o círculo dourado quando sair de casa, minha filha.

            A sinceridade adorável e implacável.

- Vai sair com esse cheiro?

- Nossa, você deveria usar calcinhas maiores, como as minhas!

- Vai sair com essa saia curta? Vão colocar a mão por baixo dela!

- Nossa, meu filho, que barriga enorme a sua!

            Seus 91 anos, 7 filhos, 11 netos, 9 bisnetos. Sua depressão quando mudamos da Praça Seca para a Barra da Tijuca. Seus dias de passeios e piscina, quando mudou para um novo condomínio. O amor incondicional por uma cadelinha que ela nunca quis, mas de quem cuidou até o fim. Sua manicure semanal, seu cabelo sempre bem curto, suas orelhas sem brinco. Sua saúde de ferro, seu glaucoma cruel, seu períneo cortado. Macarrão com ovo, angu, sopa e algum docinho pra formiguinha. Pular para a cama dela nas manhãs dos fins de semana. Tele Sena, Sílvio Santos, Hebe e Raul Gil. Julio Iglesias cantando “Crazy”.

- Ele canta mesmo, não é como essas músicas faladas de hoje em dia.

            O café da manhã que ela fazia para mim todos os dias. A mania de me mandar vestir um casaco, enquanto ela estava sempre de braços de fora. Meu amor. Suas palavras tão doces. Sua ausência / presença tão sentidas no meu casamento.

- Meu pensamento ficou com vocês o tempo todo, meu amor.

             Escrevo esse texto no dia 22 de fevereiro de 2015. Amanhã, no dia do meu aniversário, faz um ano desde a última vez que nos falamos. Quinta faz um ano que ela está internada no Barra D’Or. Segunda, eu vou me lembrar dela cantando parabéns para mim, parte favorita e mais emocionante de todos os meus aniversários. Dia 26 eu vou lembrar as incontáveis vezes em que deitei a cabeça em seu colo e fui consolada pelas suas palavras e pelo seu carinho.

- Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, minha filha.

Comentários

Nenhum comentário foi publicado para este post. Seja o primeiro a comentar...

Instagram